Como os Animais de Companhia Melhoram a Saúde Mental: A Ciência por Trás da Terapia com Animais
A ideia de que os animais nos fazem bem é antiga. O que é mais recente é a ciência que explica exactamente porquê. Ao longo das últimas quatro décadas, os investigadores foram além da anedota para demonstrar, através de estudos controlados, que interagir com animais produz alterações mensuráveis nas hormonas, na fisiologia cardiovascular e no estado psicológico. A evidência não é uniformemente forte — a área tem desafios metodológicos — mas a conclusão geral é clara: para muitas pessoas, as relações com animais são genuinamente terapêuticas.
Os Estudos Marcantes Que Deram Início a Tudo
Friedmann e a Sobrevivência Cardíaca (1980)
O interesse científico moderno pela interacção homem-animal começa, em muitos relatos, com um estudo de 1980 de Erika Friedmann e colegas publicado na Public Health Reports. Os investigadores acompanharam 92 doentes que tinham sido hospitalizados por enfarte do miocárdio ou angina de peito e avaliaram a sua sobrevivência ao longo de um período de seguimento de um ano. Os detentores de animais de companhia tiveram uma taxa de sobrevivência significativamente mais elevada do que os não detentores: 28 de 29 detentores de animais sobreviveram ao ano, em comparação com 50 de 63 não detentores. Depois de controlar outros preditores de sobrevivência, incluindo a gravidade da doença cardíaca, o estado fisiológico e os contactos sociais, a posse de um animal de companhia manteve-se como preditor independente de sobrevivência. Foi um resultado notável — e deu origem a toda uma área de estudo.
Allen, Blascovich e a Pressão Arterial
Numa série de estudos realizados ao longo da década de 1990, a psicóloga Karen Allen e colegas examinaram o efeito da posse de animais de companhia na reactividade cardiovascular ao stress. Num estudo muito citado, corretores da bolsa com pressão arterial elevada em repouso foram aleatorizados para adoptar ou não um animal de companhia. Ao fim de seis meses, aqueles que tinham adoptado um animal apresentaram uma reactividade da pressão arterial significativamente menor durante tarefas de stress de aritmética mental do que aqueles que não o tinham feito, mesmo quando ambos os grupos recebiam a mesma medicação. A investigação de Allen sugeriu que o benefício operava especificamente através do mecanismo de apoio social — os animais de companhia proporcionam uma forma de presença social não avaliativa e incondicional que atenua a resposta fisiológica ao stress de maneiras que o apoio social humano nem sempre consegue.
A Neuroquímica do Vínculo Homem-Animal

A Oxitocina e o Efeito do Olhar Mútuo
Entre as descobertas mais fascinantes da investigação sobre a interacção homem-animal está o papel da oxitocina — por vezes chamada a "hormona da vinculação" — na relação entre humanos e cães em particular. A oxitocina é libertada tanto nos humanos como nos seus cães durante o contacto visual mútuo, espelhando o mecanismo que opera entre mães e bebés. Não é um efeito pequeno: os estudos demonstraram aumentos significativos da oxitocina urinária em ambas as espécies após um período de interacção positiva, e o mesmo não se observa com lobos — mesmo os criados à mão — o que sugere tratar-se de uma adaptação específica da domesticação.
Odendaal e Meintjes: O Perfil Neuroquímico (2003)
Um artigo marcante de 2003, de Johannes Odendaal e Roy Meintjes, publicado em The Veterinary Journal, foi mais longe ao medir um painel de seis neuroquímicos em humanos e cães antes e depois de uma interacção positiva entre humano e cão. Ambas as espécies apresentaram aumentos significativos de oxitocina, beta-endorfina, prolactina, ácido fenilacético e dopamina após a interacção. Ambas as espécies apresentaram também uma diminuição significativa do cortisol (uma hormona primária do stress). Esta alteração neuroquímica bilateral — observada simultaneamente no humano e no cão — foi uma demonstração notável de que a interacção homem-animal é genuinamente mútua e não uma mera projecção. O estudo era pequeno, mas foi extensamente citado e os seus principais resultados foram amplamente replicados.
Cortisol, Stress e os Benefícios Fisiológicos Diários dos Animais de Companhia
Vários estudos em diferentes populações confirmaram já que interagir com animais — em particular acariciar ou simplesmente estar sentado com um cão ou um gato — reduz as concentrações de cortisol salivar. Estudos realizados em estudantes universitários durante períodos de exames demonstraram que sessões breves de "terapia com animais" (tão curtas como 10 minutos) produzem reduções significativas de cortisol em comparação com condições de controlo. Não se trata de mero relaxamento: o cortisol é um marcador a jusante da activação do eixo HHA, e o cortisol cronicamente elevado está associado a supressão imunitária, doença cardiovascular, alterações do sono e agravamento de perturbações de ansiedade e depressivas. Qualquer mecanismo fiável para reduzir a carga de cortisol tem verdadeira relevância clínica.
Animais de Companhia, Depressão e Solidão

A depressão e a solidão são epidémicas nas sociedades contemporâneas, e os animais de companhia são cada vez mais estudados como atenuação parcial. Uma revisão de 2016 na BMC Psychiatry concluiu que, em 17 artigos que examinaram a relação entre animais de companhia e perturbações de saúde mental, a maioria relatava efeitos positivos, sendo os animais descritos pelos participantes como fonte de apoio emocional, rotina, facilitação social e sentido de vida. Os dados qualitativos foram particularmente impressionantes: pessoas com depressão descreveram os seus animais como a razão pela qual se levantavam da cama, a entidade que exigia que estivessem presentes e a relação que as fazia sentir incondicionalmente valorizadas.
A investigação sobre a solidão mostra padrões semelhantes. Os animais de companhia reduzem os sentimentos de isolamento social não apenas através da companhia directa, mas também através da facilitação social — passear o cão, em particular, cria encontros sociais fortuitos que de outro modo não ocorreriam. Um cão na ponta da trela é, como disse um investigador, um lubrificante social.
Terapia Assistida por Animais: Da Evidência à Prática
O Que É a TAA e Como Funciona
A Terapia Assistida por Animais (TAA) é uma intervenção terapêutica estruturada e orientada para objectivos, na qual um animal é parte integrante do processo de tratamento, conduzida por um terapeuta com formação. Difere das Actividades Assistidas por Animais (AAA), que são informais e não envolvem objectivos terapêuticos específicos. A TAA tem sido aplicada em contextos psiquiátricos, na recuperação de dependências, no tratamento da perturbação de stress pós-traumático, em intervenções na perturbação do espectro do autismo e em cuidados paliativos.
Os mecanismos propostos para explicar a eficácia da TAA incluem a redução da activação fisiológica (os efeitos sobre o cortisol e cardiovasculares descritos acima), a promoção do envolvimento social em doentes que resistem ao contacto dirigido pelo terapeuta, o fornecimento de uma "âncora" emocional segura durante conversas terapêuticas difíceis e o fomento de um sentido de responsabilidade e de auto-eficácia em doentes que cuidam dos animais de terapia entre sessões.
Terapia com Animais em Hospitais e Lares de Idosos
Os programas estruturados de visitas com animais — em que cães de terapia com formação e os seus tratadores visitam enfermarias hospitalares, lares de idosos e unidades psiquiátricas — foram avaliados em numerosos estudos. Meta-análises da TAA em populações clínicas encontraram efeitos positivos significativos em medidas de depressão, ansiedade e percepção da dor. Especificamente nos cuidados a pessoas com demência, as interacções com cães de terapia demonstraram reduzir a agitação, aumentar o envolvimento social e melhorar o humor em avaliações padronizadas. Em enfermarias de oncologia pediátrica, as visitas de terapia com animais reduziram a ansiedade antes de procedimentos e encurtaram os tempos de espera percebidos.
A logística é importante: os animais de terapia e os tratadores são certificados, os animais são submetidos a rastreio de saúde e estão segurados, e são cumpridos protocolos de higiene. Não se trata de levar animais de forma casual — é um programa estruturado. Mas a evidência a favor de programas bem conduzidos é cada vez mais convincente.
Como Diferentes Animais Ajudam de Formas Diferentes
Os cães são os mais estudados e oferecem a gama mais ampla de benefícios: motivam o exercício, permitem a ligação social, respondem aos estados emocionais humanos e adaptam-se a funções formais de TAA. Os gatos, que exigem menos exercício e um menor investimento de tempo, podem ser particularmente adequados a pessoas com limitações de mobilidade, a adultos mais velhos ou àqueles cuja saúde mental torna as exigências de ter um cão demasiado elevadas. A manutenção de peixes tem sido associada à redução da pressão arterial e a um efeito calmante, tendo um estudo em doentes com Alzheimer demonstrado uma redução do comportamento agitado após a instalação de aquários num contexto de prestação de cuidados. Os cavalos são centrais na terapia assistida por equinos para o trauma e a regulação emocional; o tamanho e a sensibilidade dos cavalos parecem criar uma dinâmica terapêutica distinta, particularmente em populações adolescentes.
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Uma Visão Equilibrada
A ciência é genuinamente encorajadora, mas não isenta de ressalvas. As dimensões de efeito na investigação sobre a interacção homem-animal são variáveis, muitos estudos têm poder estatístico insuficiente ou limitações metodológicas, e o viés de publicação provavelmente inflaciona os resultados positivos. Ter um animal de companhia não é universalmente benéfico — pessoas com alergias graves, habitação inadequada, dificuldades financeiras, ou que não têm uma atitude positiva em relação aos animais, não beneficiarão da mesma forma. A posse responsável de um animal acarreta, em si mesma, exigências que podem ser stressantes para algumas pessoas. O objectivo não é prescrever a posse de animais como intervenção de saúde mental, mas compreender e tirar partido dos benefícios reais que o vínculo homem-animal, onde existe, proporciona de forma consistente.
- Ter um animal de companhia tem sido associado a uma melhor sobrevivência cardíaca desde o estudo marcante de Friedmann et al. de 1980.
- Interagir com animais desencadeia a libertação de oxitocina, dopamina e beta-endorfinas tanto nos humanos como nos animais, reduzindo ao mesmo tempo o cortisol.
- Odendaal & Meintjes (2003) demonstraram um benefício neuroquímico bilateral — ambas as espécies beneficiam em simultâneo.
- Os animais de companhia reduzem a depressão e a solidão através da companhia directa, da rotina, do sentido de vida e da facilitação social.
- A Terapia Assistida por Animais é uma intervenção clínica estruturada e apoiada em evidência, utilizada em hospitais, cuidados psiquiátricos e contextos de demência.
- Diferentes animais oferecem diferentes benefícios; cães, gatos, cavalos e até peixes têm efeitos positivos documentados em populações específicas.
Referências
- Odendaal JS, Meintjes RA. "Neurophysiological correlates of affiliative behaviour between humans and dogs." The Veterinary Journal. 2003;165(3):296–301. PMID: 12672376.
- Friedmann E, Katcher AH, Lynch JJ, Thomas SA. "Animal companions and one-year survival of patients after discharge from a coronary care unit." Public Health Reports. 1980;95(4):307–312. PMID: 6999524.
Escrito por Julia Wrenfield, Investigadora de Bem-Estar Animal. A Julia escreve sobre a intersecção entre o bem-estar animal e o bem-estar humano, com enfoque em abordagens baseadas em evidência ao vínculo homem-animal.
