A cica é tóxica para os cães?
Atualizado: junho de 2026
A planta mais perigosa do seu bairro

Se vive num clima quente — em particular no sul e no sudoeste dos Estados Unidos, no Havai ou em qualquer região tropical ou subtropical — a cica (Cycas revoluta e espécies afins) pode estar a crescer neste momento no seu jardim, no jardim do vizinho ou no parque da sua zona. É uma planta ornamental popular, apreciada pelo seu aspeto pré-histórico e pela sua robustez. É também uma planta que mata cães com uma regularidade assustadora.
A cica não é, na realidade, uma verdadeira palmeira. É uma cicadácea — um grupo de plantas que existe desde a era dos dinossauros — e produz algumas das hepatotoxinas (venenos hepáticos) mais potentes conhecidas no reino vegetal. O principal agente tóxico é a cicasina, um glicosídeo que é metabolizado no organismo em metilazoximetanol (MAM), um composto que destrói diretamente as células hepáticas. Outras toxinas, incluindo a beta-metilamino-L-alanina (BMAA), contribuem para os danos neurológicos.
O resultado da ingestão de cica é uma necrose hepática (do fígado) grave, rápida e frequentemente fatal — a morte generalizada do tecido hepático. Sem um fígado funcional, o organismo não consegue desintoxicar o sangue, produzir fatores de coagulação nem desempenhar centenas de outras funções metabólicas essenciais. Os cães que sobrevivem ao tratamento inicial enfrentam muitas vezes uma recuperação prolongada e incerta.
Por que razão as sementes são especialmente letais

Embora todas as partes da cica sejam tóxicas — as frondes (folhas), o tronco, as raízes e os cones —, as sementes (também chamadas nozes) contêm, com uma margem significativa, a maior concentração de cicasina. Uma única semente pode matar um cão de porte médio. Isto não é um exagero para causar efeito; é uma realidade clínica documentada que os toxicologistas veterinários têm relatado de forma consistente.
As sementes são particularmente perigosas porque os cães as acham atraentes. São redondas, lisas e têm uma textura e um aspeto que as tornam apetecíveis para morder. Já se observaram cães a procurar e a consumir deliberadamente sementes de cica, às vezes várias sementes de uma só vez. Numa cica adulta que esteja a produzir cones, podem estar presentes dezenas de sementes ao mesmo tempo.
Os pais e os tutores de animais que vivam em zonas onde crescem cicas devem estar plenamente conscientes deste perigo. Um cão que entre no jardim de um vizinho que tenha uma cica, ou que encontre uma cica num parque, pode consumir sementes antes de o tutor se dar conta do que aconteceu.
Sintomas de intoxicação por cica nos cães
A evolução temporal da toxicidade da cica segue uma progressão previsível e assustadora:
Entre 15 minutos e 3 horas após a ingestão:
- Vómitos intensos (muitas vezes o primeiro sinal)
- Diarreia, possivelmente com sangue
- Letargia extrema
- Salivação excessiva
- Dor abdominal
24–48 horas após a ingestão (fase de insuficiência hepática):
- Icterícia (amarelecimento da pele, do branco dos olhos e das mucosas)
- Hemorragias anormais — das gengivas, nas fezes, a partir de feridas pequenas que não coagulam
- Fezes negras e alcatroadas (indicativas de hemorragia gastrointestinal)
- Ascite (acumulação de líquido no abdómen)
- Sinais neurológicos graves: tremores, convulsões, desorientação, coma
- Colapso e morte
Os sinais neurológicos surgem porque um fígado em falência não consegue processar a amónia proveniente do metabolismo normal das proteínas, o que leva a encefalopatia hepática — um estado tóxico do cérebro. Os cães nesta fase encontram-se em estado crítico e muitas vezes não podem ser salvos, mesmo com cuidados intensivos.
Tratamento e prognóstico: uma realidade dura
O tratamento tem de começar na primeira ou segunda hora após a ingestão para ter alguma probabilidade real de sucesso. A descontaminação imediata (indução do vómito, administração de carvão ativado para impedir a absorção de mais toxina) é a primeira prioridade. Isto tem de ser feito por um médico-veterinário — não tente induzir o vómito em casa.
Mesmo com um tratamento ideal e agressivo — fluidoterapia intravenosa, protetores hepáticos como a N-acetilcisteína e a silimarina (cardo-mariano), vitamina K para apoiar a coagulação, plasma fresco congelado para fornecer fatores de coagulação e monitorização intensiva —, a taxa de mortalidade publicada para a intoxicação por cica situa-se entre os 50 e os 75 por cento. Alguns estudos relataram mortalidade ainda mais elevada quando o tratamento é tardio ou incompleto.
Os cães que sobrevivem necessitam frequentemente de semanas de cuidados de suporte e podem sofrer lesões hepáticas permanentes. A conclusão é crua: o melhor tratamento para a intoxicação por cica é a prevenção, porque a cura não é obtida de forma fiável.
Eliminar o risco: o que os tutores têm de fazer
Se tem uma cica no seu jardim e um cão, a única atitude responsável é remover a planta por completo — raízes incluídas — e eliminá-la de modo a que não fiquem sementes acessíveis. Não basta vedar a planta; cães determinados e aqueles que escavam continuam a conseguir chegar às sementes e frondes caídas.
Observe o seu bairro e anote onde crescem cicas. Evite passear o seu cão perto dessas propriedades. Se vive numa região onde as cicas são comuns em espaços públicos, mantenha o seu cão com trela e sob supervisão atenta sempre que estiver na rua.
Tenha presente que a planta é conhecida por vários nomes: Cycas revoluta, palmeira-coontie, palmeira-cartão (Zamia furfuracea) e cicadácea são todas plantas relacionadas e igualmente tóxicas. A "cica" ornamental vendida nos centros de jardinagem é quase sempre Cycas revoluta.
Pontos essenciais
- A cica é uma das plantas mais letais para os cães — todas as partes são tóxicas, sobretudo as sementes.
- A toxina cicasina provoca insuficiência hepática catastrófica, com uma taxa de mortalidade de 50–75% mesmo com tratamento.
- Uma única semente pode matar um cão de porte médio; várias sementes são quase certamente fatais.
- Os sintomas progridem de vómitos para icterícia, distúrbios da coagulação, convulsões e morte no espaço de 24–72 horas.
- Trata-se de uma verdadeira emergência — ligue imediatamente ao seu médico-veterinário ou ao Centro Antivenenos da ASPCA através do número (888) 426-4435.
- A opção mais segura: remover as cicas de qualquer propriedade onde vivam ou entrem cães.
Referências
- Albretsen JC, Khan SA, Richardson JA. "Cycad palm toxicosis in dogs: 60 cases (1987–1997)." Journal of the American Veterinary Medical Association. 1998 Aug 1;213(1):99-101. PMID: 9676488
- Gwaltney-Brant SM. "Cycads." Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice. 2002 Mar;32(2):505-14. PMID: 11947531
